Saiu na Science um dos estudos mais completos já feitos sobre trabalho remoto, e o resultado incomoda.
Natalia Emanuel, do Federal Reserve de Nova York, Emma Harrington, da Universidade da Virgínia, e Amanda Pallais, de Harvard, cruzaram cinco pesquisas nacionais americanas, com 588.322 trabalhadores, entre 2011 e 2024. Tiraram de propósito os anos de pico da pandemia, para não confundir efeito de home office com efeito de confinamento.
O achado principal
Quem está em ocupações que dá para fazer de casa passa, em média, 1,1 hora a mais sozinho por dia útil do que quem está em ocupação presencial.
Uma hora por dia. Todo dia útil.
E vem a parte mais dura: esse tempo não volta depois do expediente. O mesmo grupo reduz convivência com amigos à noite, em vez de repor o que perdeu durante o dia.
Os efeitos sobre saúde mental, incluindo uso de serviços e de medicação, se concentram em quem mora sozinho. Quem tem casa cheia sente bem menos.
Quem tem casa cheia sente menos. Quem mora só leva a conta inteira.
O tamanho da conta
O estudo estima que o trabalho remoto responde por cerca de um terço do aumento de isolamento e de sofrimento mental observado entre o período de 2011 a 2019 e o de 2022 a 2024.
Um terço é muito para uma mudança que quase nenhuma empresa mediu antes de adotar. O home office foi implantado no susto, em 2020, e depois mantido porque as pessoas gostaram e porque cortava custo de escritório. Ninguém colocou na conta o que estava sendo removido junto.
A saída que os autores propõem
Antes que isso vire munição para mandato de volta ao escritório, vale ler o que eles de fato recomendam: dias-âncora.
Em vez de cada pessoa escolher o seu dia presencial, o time inteiro combina os mesmos dias. A diferença é enorme. Escritório com todo mundo em dias diferentes entrega o pior dos dois mundos: a pessoa se desloca, perde tempo no trânsito, e ainda assim trabalha sozinha, só que numa cadeira menos confortável.
Contato casual não se agenda. O que dá para fazer é criar condição para ele acontecer.
O ponto central é esse: convívio no trabalho nunca foi um benefício. Era infraestrutura. Acontecia sozinho, sem ninguém precisar organizar, e por isso ninguém percebeu que estava sendo desmontado.
Três perguntas para quem lidera
- Os seus dias presenciais estão coordenados, ou cada um escolhe o seu?
- Quem no seu time mora sozinho, e como isso muda a exposição dessa pessoa?
- O seu calendário tem algum momento de contato que não seja reunião com pauta?
E existe uma conexão direta com o que já está na mesa aqui no Brasil: a partir de 24 de setembro de 2026, as sanções da NR-01 sobre riscos psicossociais voltam a valer. Isolamento no trabalho remoto é exatamente o tipo de fator que precisa estar mapeado. Escrevi sobre esse prazo neste artigo.
O que funciona para mim
Trabalho de casa desde que vim para Sydney, então falo com conhecimento de causa. A liberdade é real, e a conta também.
- Sair de casa antes de abrir o laptop, nem que seja até a padaria. O contato breve conta.
- Um compromisso presencial fixo por semana, com dia definido: aula, coworking, reunião com gente.
- Combinar o dia, e não a intenção. Dia marcado acontece. Disposição não.
Convivência que depende de sobrar tempo nunca sobra.