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A menina que já sabia

O primeiro capítulo de A Mulher por Trás do Negócio, na íntegra. Começa numa calçada do interior de Goiás, com uma prateleira e cinco anos de idade.

4,552 palavras 23 min de leitura Dalila Reis Santos
“Quando ouso ser poderosa, usar minha força a serviço da minha visão, fica cada vez menos importante se sou destemida.”
Audre Lorde

Eu tinha cinco anos quando abri meu primeiro negócio.

Não foi ideia dos meus pais. Não foi brincadeira de criança. Foi um plano real, com prateleira, cliente e troco no bolso — mesmo que eu ainda não soubesse essas palavras.

Nasci em Santa Vitória, no Triângulo Mineiro, mas foi em São Simão, no interior de Goiás, que cresci e me formei como pessoa. São Simão era — e ainda é — uma cidade pequena, daquelas em que as crianças brincam na rua sem medo, em que os vizinhos se conhecem pelo nome, em que todos sabem quem é filho de quem. Minha infância foi, acima de tudo, uma infância livre. Eu ia sozinha até o clube, perto de casa, todos os dias — e lá encontrava a turma, a água, as corridas no gramado, a liberdade solar de quem ainda não carrega o peso do tempo. Andava de bicicleta, voltava para casa, saía de novo, voltava, e ninguém se preocupava. Era uma comunidade em que confiar era a regra.

Tive pais presentes, irmãs mais velhas que me protegiam, amigas de rua, vizinhos de quintal, uma primeira escola que guardo no coração até hoje — a Escola Cora Coralina, homenagem à poeta goiana que também começou na nossa região. Nenhuma história de trauma atravessa essa fase. Apenas liberdade, afeto e o terreno fértil em que a criança que eu era pôde descobrir, cedo, do que ela gostava — e do que ela era capaz.

A nossa casa ficava numa esquina, em um bairro residencial afastado do centro da cidade. Não tinha loja por ali. Tinha, sim, um ponto de ônibus bem em frente à minha calçada — e foi nessa calçada que aconteceu meu primeiro experimento comercial: uma prateleirinha montada do lado de fora, um banquinho, e eu ali, sentada, atendendo as vizinhas que passavam.

Eu vendia brincos, pequenos shampoos, batons — produtos de tíquete baixo, fáceis de girar. Ia de bicicleta até o centro da cidade, escolhia o que achava que venderia, pedalava de volta e organizava minha prateleira como se fosse vitrine de boutique. O poder de compra das minhas amigas e vizinhas não era grande, então não vendia tanto assim. Foi uma experiência breve, pequena em faturamento, mas enorme em sinalização — ela me mostrava, e mostrava a quem estava por perto, que havia dentro de mim uma vontade que vinha de um lugar antigo. A vontade de fazer acontecer.

Hoje, olhando para trás, eu entendo que aquilo não era precocidade. Era identidade.

Natação, karatê e balé

Outro fio que atravessou a minha infância inteira, e que moldou muito do que viria depois, foram os esportes.

Nadei dos 8 aos 14 anos. Tinha aula duas vezes por semana, mas quase todos os dias eu ia ao clube com os amigos e mergulhava por puro prazer. A natação me ensinou algo que é raro aprender cedo: o ritmo da consistência. Ir à aula mesmo quando a preguiça gritava. Respirar no mesmo compasso, braçada atrás de braçada. Entender o próprio tempo. Sem essa constância silenciosa, eu provavelmente não teria concluído duas faculdades, uma pós-graduação e 18 anos de empresa.

Mas o esporte que me marcou de forma mais profunda foi o karatê.

Fiz karatê dos 6 aos 8 anos. Curto, intenso, formativo. Naquela época, na minha cidade e na minha faixa etária, não havia outras meninas do meu porte competindo. Então, eu lutava com meninos. E ganhava. Nunca perdi uma luta nas competições das quais participei — Cachoeira Alta, Ituiutaba, Santa Vitória, toda a região em torno.

O karatê me ensinou uma lição que me acompanha até hoje, em cada sala de reunião, em cada negociação complicada, em cada decisão de gestão difícil: não se ganha na raça. Ganha-se na técnica, na calma e no tempo certo do movimento. A agressividade gratuita perde. A pressa perde. A ausência de método perde. Quem vence é quem estuda o adversário, escolhe o momento e executa com precisão.

Parei quando o professor foi embora da cidade — uma das limitações clássicas do interior. Entrei no balé em seguida. Depois da disciplina rígida do karatê, o balé trouxe leveza, outra qualidade do movimento, outra forma de estar no corpo. Não era sobre vencer. Era sobre expressar. Foi um contraponto precioso.

Olhando para trás, percebo: o karatê me preparou, aos 6 anos, para competir contra homens num ambiente dominado por eles. Décadas depois, eu entraria em reuniões com engenheiros do setor elétrico sendo a única mulher da sala. O tatame havia sido meu primeiro simulado.

O futebol e o meu maior torcedor

No balé, eu me sentia fora do lugar. No campo, pela primeira vez, eu me sentia em casa.

O futebol entrou na minha vida por volta dos 12 anos, quando meu pai assumiu a Secretaria de Esportes da cidade. De repente, o que tinha sido brincadeira de quintal virou rotina — treinos no salão, jogos no campo, viagens para campeonatos em cidades vizinhas do interior de Goiás.

E meu pai estava em todos. Levava o time, ajeitava o uniforme, gritava do lado da quadra. Ele era o secretário, sim, mas antes disso ele era o meu maior torcedor — e nem tentava disfarçar.

O karatê tinha me ensinado a me defender sozinha. A natação, a confiar no meu próprio fôlego. Mas o futebol me ensinou outra coisa: que jogar bem, sozinha, não vence o jogo. Eu podia ser a mais rápida do campo, mas se não passasse a bola na hora certa, a gente perdia. Aprendi a depender do outro — e a ser confiável quando o outro dependia de mim. Sem saber, eu estava treinando para o que viria décadas depois, quando montei a Organiza e descobri que nenhum negócio se sustenta no esforço de uma pessoa só.

Parei de jogar quando meu pai sofreu um acidente. Voltei aos 23, depois de me formar em Economia, com um time amador — não pelo título, mas porque o campo era um dos poucos lugares onde eu conseguia, por 90 minutos, esquecer do mundo.

As laranjinhas

Foi entre os 6 e os 8 anos que eu tive, de verdade, o meu primeiro negócio sério.

No bairro onde eu morava havia dois pontos de ônibus: um em frente à minha casa e outro mais abaixo, na rua seguinte. Os dois serviam, entre outras coisas, aos trabalhadores da usina hidrelétrica de São Simão — homens que iam e voltavam em horários concentrados, principalmente no almoço. A cidade era quente. O sol do Centro-Oeste não perdoa. E o intervalo do almoço — aquela uma hora de circulação intensa no ponto — se tornou, para mim, o horário nobre da minha primeira operação comercial séria.

A ideia era simples e muito querida pelos brasileiros: laranjinhas — aqueles sorvetes e sorbets caseiros feitos em saquinhos plásticos, congelados, doces, refrescantes. Nem todas levavam leite — algumas eram sorbets de fruta pura, outras eram sorvetes cremosos. Só que as minhas eram diferentes das que se vendiam por aí.

Meus pais eram meus sócios silenciosos nessa empreitada. Eu tinha só 6 anos, não teria como preparar sozinha um produto com o padrão que eu queria. Então eles compravam os ingredientes e faziam as laranjinhas em casa, com qualidade alta e variedade impressionante: laranja, coco, chocolate, tamarindo e sabores mais inusitados, como coco queimado e melancia — alguns nasceram de pedidos específicos de clientes. A caixa de isopor era rigorosamente higienizada todos os dias. Eu organizava tudo com o capricho de quem sabe que aparência, limpeza e variedade vendem tanto quanto o sabor.

Eu tinha uma bolsinha verde xadrez. Nela, guardava o troco do dia, organizado por valor, e um caderninho onde anotava — com letra ainda infantil, mas disciplina já adulta — cada compra feita a prazo. Porque sim: já aos 6 anos, eu oferecia crédito aos meus clientes. Anotava nome, valor e data, e cobrava discretamente quando era hora de acertar. Nunca fui do tipo que constrange devedores em público. Eu tinha discrição. Eu já entendia, de alguma forma ainda intuitiva, que confiança é o ativo mais valioso de qualquer relação comercial.

Minha clientela era quase 100% adulta — homens entre 20 e 60 anos, trabalhadores da usina. E eu sabia, cedo, o que hoje os manuais de gestão ensinam em cursos inteiros: dar troco sem erro, anotar pendências sem esquecer, cumprimentar cada cliente pelo nome. Aprendi a lidar com pessoas muito mais velhas do que eu num contexto em que minha única legitimidade era a qualidade do meu trabalho.

No meu ponto de ônibus havia um rapaz que fazia jogo do bicho. Virou meu amigo. Dividíamos aquela esquina como dois pequenos comerciantes — cada um com seu negócio, cada um respeitando o espaço do outro. Aquele cantinho da cidade virou o nosso ponto, o nosso comércio informal, onde fomentávamos, à nossa maneira, a economia local. Eu vendendo laranjinhas; e ele anotando apostas. E os trabalhadores da usina, clientes dos dois, sustentando aquela microeconomia inteira operando na calçada.

Às vezes, minha irmã Daniela ia comigo. A caixa de isopor era pesada, e ela me ajudava a carregar. Ela não gostava de vender — a exposição pública não era o forte dela —, mas me acompanhava quando minha mãe pedia, e voltava para casa depois. Minha mãe entendia, antes de mim, que aquilo que eu estava fazendo ali tinha um peso formativo que ela não queria interromper.

Nem tudo foi fácil. Na rua de baixo, no outro ponto de ônibus, havia um menino que também vendia laranjinhas. Só que as dele eram diferentes: sabores artificiais, corantes vibrantes, groselha, laranja sintética — o tipo de produto mais barato e menos cuidado. Algumas pessoas, que eu considerava amigas na época, começaram a fazer comentários que hoje eu identifico como o que realmente eram: tentativas de desestimular. “A laranjinha dele é mais gostosa.” “Ele tem um sabor que você não tem.” “Vi um monte de gente comprando lá.” Eu tinha 6, 7 anos. Meu primeiro contato direto com concorrência veio acompanhado do meu primeiro contato direto com comentários que serviam mais para me abalar do que para me informar.

Eu contava tudo em casa. Meus pais me davam força. Meu pai dizia que quem tem qualidade não precisa correr atrás de quem desvaloriza. Minha mãe dizia que, se a minha laranjinha era boa de verdade — e era —, a clientela se mantinha fiel. E era. Eu mantive o padrão. Continuei firme no meu propósito. Não baixei a qualidade para competir no preço. Não copiei o concorrente. Não brigo por cliente que prefere algo inferior por um centavo a menos.

Essa lição, aprendida aos sete anos num ponto de ônibus do interior, viraria a minha filosofia inteira quase três décadas depois, quando participei da minha primeira licitação como empresária. Mas já chegaremos lá.

Com o dinheiro das laranjinhas, meu pai me levou ao banco e abrimos minha primeira caderneta de poupança. Era começo dos anos 1990, em pleno contexto de inflação galopante — e eu ligava todas as semanas para o gerente do banco para checar o saldo. Parecia brincadeira de criança. Era um ritual de educação financeira que virou hábito de vida. Comprei, com aquele dinheiro, minha bicicleta. Comprei um rádio toca-fitas, que era o auge da tecnologia portátil da época. Comprei presentes para minha mãe e para minha família. Mas o grosso foi guardado.

Meu pai também me ensinou o valor do trabalho de uma forma mais direta: ele me contratava em casa. Pagava por cada serviço — lavar o carro, limpar o viveiro de pássaros, dar comida aos pássaros e ao cachorro. Eram tarefas pequenas, com remuneração combinada antes, prazo claro e padrão de entrega exigido. Naquele tempo, eu só achava que era um jeito gostoso de ganhar uma graninha extra. Hoje entendo que era um currículo: meu pai estava me ensinando a vincular trabalho a renda, a entregar o que combinava, a respeitar o cliente — mesmo quando o cliente era ele.

Em certo momento, tive vários clientes que estavam devendo havia tempo. Um homem adulto se ofereceu, espontaneamente, para ajudar a cobrar por mim — talvez achasse que uma criança não daria conta. Contei para o meu pai. Ele disse: “Pode deixar, filha. Se ele quer ajudar, deixa.” Aquela cobrança voluntária foi feita. As pessoas pagaram. E eu aprendi, cedo, uma lição elegante: aceitar ajuda não é fraqueza. É sabedoria.

O negócio das laranjinhas terminou naturalmente. Como todo negócio bem-vivido, cumpriu sua função na minha formação e deu lugar ao próximo.

LaDas: a sociedade dos doces

Alguns anos depois das laranjinhas, veio minha segunda sociedade — dessa vez com a Larissa. Fundamos a LaDas — junção dos nossos nomes, Larissa e Dalila. O nome carregava nossa assinatura conjunta, e nós duas assumíamos a operação inteira: comprávamos os ingredientes, fazíamos os doces em casa, embalávamos, precificávamos e vendíamos na escola e no clube à tarde.

Éramos duas meninas dividindo responsabilidades com a seriedade de quem leva o próprio negócio a sério. Fazíamos de tudo para vender bem: variávamos o cardápio, caprichávamos na apresentação, circulávamos em todos os pontos em que sabíamos que havia clientes potenciais. A LaDas me ensinou, ainda na infância, algo que eu só iria formalizar anos depois, na faculdade de Administração: um negócio exige produto, operação, venda e relacionamento — e nenhuma dessas quatro frentes pode ser negligenciada.

A LaDas não durou para sempre, mas me deixou lembranças carinhosas — daquelas que só o começo da vida consegue entregar.

O Clubinho

Por volta dos meus nove anos, a minha família passou nove meses numa casa provisória. Estávamos construindo a nossa casa nova e, enquanto a obra não ficava pronta, fomos morar numa outra casa do mesmo bairro — mais afastada, mas com muito mais espaço de vizinhança para brincar: pomar, gramado, terreno aberto. Os amigos eram os mesmos de sempre. O cenário é que ficou maior. E foi nesse cenário que montei o meu primeiro projeto de liderança.

A gente chamava de Clubinho. A ideia era simples: reunir a turma do bairro a cada 15 dias para uma gincana — quiz, brincadeiras, provas e prêmios. Cada participante contribuía com uma pequena quantia, e com esse dinheiro eu comprava os prêmios dos ganhadores. Era um orçamento de verdade — pequeno, mas com entrada e saída, com prazo e com propósito.

E eu não fui presidente por indicação própria: promovi uma eleição. Houve algumas chapas concorrendo, cada uma com seu candidato a presidente e a vice — e a nossa venceu. Acho que a maioria entendeu que fazia sentido eu liderar, já que a ideia tinha sido minha, e fui eu quem reuniu o pessoal e organizou a primeira gincana. Foi a minha primeira eleição — e a primeira vez que senti, sem saber nomear, que liderança de verdade não se impõe: conquista-se pelo voto de quem confia em você.

Como presidente, eu tinha um vice: o Big, meu amigo querido, que infelizmente já partiu. O Big tinha um talento que eu não tinha — era um relações-públicas nato, sabia falar com todo mundo, agregava, animava. Onde eu era organização e planejamento, ele era calor humano e articulação. Sem nunca termos combinado, a gente se completava. Foi a minha primeira experiência prática de uma lição que eu só formalizaria décadas depois: uma boa sociedade não se faz de pessoas iguais, e sim de pessoas que cobrem as lacunas uma da outra.

A turma tinha de nove a catorze anos — ou seja, eu liderava gente mais velha do que eu, na entrada da adolescência, uma fase delicada. Éramos cerca de 15 crianças. Meu pai, mais uma vez, entrava como o conselheiro de bastidor: me ajudava a pensar perguntas para o quiz, ideias de brincadeiras e dinâmicas para as provas. Ele nunca aparecia na gincana — mas estava em cada detalhe dela.

O Clubinho

durou nove meses — exatamente o tempo em que vivemos naquela casa provisória. Quando a casa nova ficou pronta e nos mudamos, ele se encerrou, como se encerram as coisas boas da infância: sem drama, tendo cumprido o seu papel. Mas o que ele me ensinou ficou comigo: liderar pessoas mais velhas; construir ao lado de um parceiro que me completava; organizar, sozinha, um evento recorrente com orçamento próprio. Tudo isso aos nove anos, num quintal de bairro.

Os pássaros silvestres

Entre os 12 e os 13 anos, veio o meu empreendimento mais lucrativo da infância. E ele chegou até mim, simbolicamente, pelas mãos do meu pai.

Meu pai sempre foi criador de pássaros. Era o hobby dele — canários, pintassilgos, curiós. Ele conhecia bem o mundo dos criadores da nossa região e havia, há algum tempo, assumido informalmente uma função burocrática nesse circuito: fazer os registros oficiais das aves junto a uma associação ornitológica sediada em Belo Horizonte. Mas meu pai trabalhava em horário comercial na usina e viajava, o que tomava um tempo que ele não tinha. Em certo momento, ele olhou para mim e decidiu: aquele serviço passaria a ser meu.

Ele confiava na minha capacidade. Sabia que eu gostava daquele tipo de trabalho — organizado, com fluxo definido, com documentação e responsabilidade. E via ali uma oportunidade para eu continuar engordando minha poupança, agora num patamar maior.

O modelo de negócio era, na prática, duplo — e isso foi, para mim, a primeira aula de receita recorrente: primeiro, registrava-se o criador como pessoa física na associação (o tíquete maior, a venda inicial, o grande salto de caixa). Depois, eram registrados os pássaros, um a um, com anilhas identificadoras (o tíquete menor, mas frequente, que formava uma cauda longa de receita ao longo do ano). Eu cadastrava os donos, comprava as anilhas, organizava a logística de envio e recebimento, e entregava o serviço com o rigor burocrático que criadores sérios exigiam.

Tinha uma clientela fixa. E, como criadores fazem networking entre si, novos clientes chegavam por indicação, sem que eu precisasse fazer esforço comercial. Hoje eu sei que aquilo se chama negócio por indicação — o santo graal de qualquer prestador de serviço. Naquela época, eu só sabia que estava ganhando dinheiro, um bom dinheiro, com regularidade.

E, mais uma vez, o destino desse dinheiro era conhecido. Direto para a poupança. Direto para a preparação do que viria depois — mesmo que, aos 13 anos, eu não soubesse exatamente o que viria.

Quem guarda, tem (e quem resolve, resolve)

Cresci vendo duas formas distintas de inteligência profissional convivendo na mesma casa — e herdei, sem saber, um pedaço bem definido de cada uma.

Meu pai, Geraldo, era supervisor de operação e manutenção em uma usina hidrelétrica. Um profissional respeitado no setor elétrico, o mesmo setor em que, décadas depois, eu também construiria minha carreira. Mas meu pai nunca foi apenas funcionário. Fora do expediente da usina, era empreendedor. Teve uma marcenaria — em sociedade com meu tio, que ficava no dia a dia da operação enquanto meu pai cumpria o expediente na usina. Anos depois, quando meu tio decidiu comprar a parte do meu pai, ele saiu e abriu, por conta própria, uma madeireira. Construiu patrimônio em paralelo ao salário, com disciplina financeira e olho comercial.

A filosofia dele era simples, prática e inegociável. Repetia como se fosse um mantra:

“Quem guarda, tem. Quem gasta tudo hoje, não tem pra amanhã.”

Não era avareza. Não era discurso contra prazer. Era estratégia silenciosa. Ele dizia: “Quem gasta tudo no primeiro impulso, quando aparece uma oportunidade que vale a pena, não tem com o que aproveitar”. E oportunidades aparecem para quem está preparado. Eu acreditei. E, durante a vida inteira, as oportunidades vieram — e eu, puxando pela disciplina que meu pai me ensinou, estava sempre com o dinheiro separado para agarrá-las. A poupança dele virou o capital da minha liberdade.

Minha mãe, Nadir, sustentava a outra ponta dessa engrenagem familiar. Na marcenaria, sua participação era menor — o sócio estava lá o dia todo, conduzindo a operação. Mas na madeireira, quando meu pai ficou à frente do negócio sozinho, ela se envolveu mais diretamente. Não era ela quem executava o operacional — meu pai também dedicava tempo ao negócio e tinha funcionários que cuidavam das tarefas diárias. Minha mãe era supervisora: acompanhava de perto, conferia, tomava decisões pontuais, corrigia rumos. Era ela o ponto de contato entre o empreendimento e a família, entre a rotina do comércio e a rotina da casa.

E fazia tudo isso enquanto criava três filhas — Graciela, a mais velha; Daniela, a do meio; e eu, a caçula — em todas as suas fases: infância, pré-adolescência e adolescência, cada uma com seu conjunto particular de demandas.

Poucos reconhecem, no currículo das mulheres, o que elas conduzem ao mesmo tempo. Minha mãe conduzia, em paralelo: a casa, três meninas em formação, a supervisão dos empreendimentos do meu pai, as responsabilidades domésticas e emocionais, os desafios financeiros quando eles apareciam. Era uma CEO sem título — e era competentíssima no que fazia.

Se meu pai me ensinou a poupar, minha mãe me ensinou a resolver. Ela não é procrastinadora. Nunca foi. O que tem que ser feito, ela faz — e faz rápido. Não deixa para amanhã. Não fica em cima do muro. Não se perde em análises intermináveis. Essa proatividade é o motivo pelo qual eu nunca consegui trabalhar como empregada: eu preciso resolver logo, decidir logo, fazer logo. Empreender foi, para mim, o único modo de operar que fazia sentido. Porque empreender é decidir. É resolver. É não ficar esperando que outra pessoa aprove.

Essa herança dupla — do meu pai, a poupança e a estratégia de longo prazo; da minha mãe, a execução rápida e a proatividade — me acompanha em cada decisão de gestão que tomo até hoje. E é, provavelmente, o ativo familiar mais valioso que eu carrego.

O dia em que tudo virou

Eu acabara de fazer 14 anos quando a vida da nossa família mudou em um único sábado.

Era um sábado comum. Nossa família estava reunida em casa. Naquela manhã, minha mãe — com apenas 44 anos, dois a mais do que eu tenho hoje enquanto escrevo estas linhas — estava na cozinha preparando tortas. Ela fazia tortas para vender, era uma das formas de complementar a renda da casa. Meu pai entrou, aproximou-se de mim, colocou a mão no meu queixo como só pais fazem, e disse, com a voz calma daquelas manhãs comuns que a gente depois aprende que não eram comuns:

“Minha filha, eu te amo tanto, que peço a Deus que, se for para acontecer alguma coisa ruim com você, aconteça comigo.”

Três horas depois, estávamos na estrada, indo visitar minha avó. No carro: eu, meu pai, minha mãe, meu tio, a mulher dele na época e o filho deles, um bebê de cinco meses. Um pneu furou. O carro capotou — três vezes, pelo menos. Paramos virados, todos tortos.

Meu pai se virou para mim, ainda lúcido, e perguntou: “Você está bem?”. Eu disse que sim. Perguntei o mesmo a ele. Ele respondeu: “Eu não estou sentindo as pernas”.

O sangue começou a escorrer. Minha mãe, com uma força que só existe em momentos como aquele, deu um chute no para-brisa para abrir caminho e nos tirar dali. Nós saímos. Meu pai ficou dentro do carro — não havia como movimentá-lo com segurança. Alguém correu até uma venda próxima. Um homem que tinha uma picape nos ajudou: colocaram um colchão na carroceria da Chevy — era um modelo pequeno, aquelas picapes antigas — e, com todo o cuidado possível, puseram meu pai ali em cima e o levaram até a cidade mais próxima, onde recebeu os primeiros atendimentos antes de ser transferido para um hospital maior.

Meu pai ficou tetraplégico. Tinha apenas 51 anos. Era um homem ativo na prefeitura de São Simão como secretário de Finanças, já aposentado do setor elétrico, com a mente aguda, muitos planos em andamento, muitos anos pela frente. Em um único dia, tudo foi reconfigurado.

A premonição daquela manhã, na cozinha com as tortas, ficou em mim para sempre. Meu pai havia pedido a Deus que, se tivesse que acontecer algo ruim, que acontecesse com ele. E aconteceu. Talvez seja coincidência. Talvez seja algo mais. Eu nunca tive coragem de nomear exatamente.

Minha mãe, aos 44 anos, foi chamada a segurar uma família inteira. Eu olho para ela hoje, da minha idade atual de 42, e não me imagino fazendo o que ela fez. A força dela naquele período é um dos maiores exemplos de coragem que eu conheço.

Mas o que veio depois foi, a seu modo, uma lição silenciosa sobre o que realmente significa força.

Meu pai fez cirurgia. Passou pela reabilitação possível. Minha mãe assumiu — com a dedicação de quem escolhe todos os dias — os cuidados diários que ele precisava. E meu pai, de um jeito que ainda me impressiona, continuou sendo o chefe da família. Continuou decidindo. Continuou planejando. Continuou administrando o patrimônio. Recebeu o seguro do acidente e, com ele, não comprou conforto passageiro — investiu. Construiu prédios comerciais, expandiu o que já tinha, continuou sendo, até hoje, aos 79 anos, a referência financeira e estratégica da nossa família. As decisões seguem sendo dele, em comum acordo com minha mãe. A cadeira não apagou a mente. A tetraplegia não apagou o empreendedor.

Para mim, aos 14 anos, o impacto imediato foi outro. Minhas irmãs, Graciela e Daniela, já moravam em Ribeirão Preto. Meus pais precisavam se concentrar no longo processo de tratamento e reorganização em São Simão. Em janeiro do ano seguinte, ainda com 14 anos, eu também fui para Ribeirão Preto — e, diferentemente do que as histórias de mudança de cidade costumam sugerir, aquela mudança não foi apenas sobre ampliar horizontes. Foi, principalmente, sobre permitir que nossa família se reorganizasse.

Em Ribeirão Preto, minha irmã Graciela, então com 21 anos, assumiu um papel que nenhuma jovem de sua idade deveria precisar assumir. Cuidou de mim e da Daniela — das duas. Cozinhava, levava à escola, administrava a casa, dirigia. Foi filha, irmã e mãe substituta ao mesmo tempo. Aos poucos, fui aprendendo a cuidar da casa também: fazer comida, lavar e passar roupa, organizar a rotina. Coisas que, para muitas adolescentes, são escolhas; para mim, naquele momento, foram necessidade e formação.

Daniela, com apenas 17 anos, também foi uma parceira essencial. Era minha confidente, com quem eu trocava ideias sobre tudo — escola, sentimentos, pequenas decisões do dia a dia — e quem, quando eu precisava, sentava comigo para resolver uma dúvida ou um problema. Num momento em que a família inteira estava se reorganizando à distância, Graciela foi o cuidado; Daniela foi o ensino; e as duas, juntas, foram a ponte entre quem eu era antes do acidente e quem eu precisaria ser depois. Devo a elas uma parte importante da adulta que me tornei.

O que eu aprendi com tudo isso, e que levei comigo para cada empresa que construí depois, é uma única verdade que só se entende quando se passa por algo assim: a vida vira num instante. Por isso, construir com solidez, poupar com disciplina, honrar pessoas, manter a integridade — nada disso é exagero. É a única coisa que sobra quando o chão se mexe.

Meu pai me ensinou isso duas vezes. A primeira, com palavras, ao longo de toda a infância. A segunda, com o próprio exemplo, depois daquele sábado.

Fim do capítulo 1. Cada capítulo do livro termina com uma Ferramenta do Capítulo, um exercício prático que transforma a história em decisão. A deste aqui se chama Como identificar seu perfil empreendedor antes de ter uma empresa, e está no livro.

São 189 páginas e 11 capítulos, de uma operação que começou numa calçada e chegou a 505 pessoas em 14 estados.

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